OPCP numa campanha vergonhosa, não
olha a meios para atacar o Bloco de Esquerda. Quando os adversários,
nesta luta, contra a despenalização do aborto, estão identificados, o
PCP inventa mais alguns. Um PCP, estranhamente, inquieto, ou talvez não
estranhamente, mente. Não é a primeira vez que o faz. O PCP tenta colar
o BE ao atraso na resolução deste problema. Só por má fé, desonestidade
política, oportunismo. Não ganha nada com isto. Não ganha votos, não
ganha simpatias.
Não se trata aqui de fazer a defesa do Bloco por defender.
Trata-se
de denunciar a mentira, a sem-vergonha, o oportunismo. Todos sabem do
empenhamento do Bloco na alteração da actual lei. Desde o primeiro dia.
Não
me esqueço de ver os militantes na rua, em sessões de divulgação e de
esclarecimento, da colocação de bancas públicas, de painéis, no empenho
pela petição popular por um novo referendo, na apresentação de diplomas
na AR, nas votações a favor de outros no mesmo sentido.
O que é preciso mais? Que o Bloco tenha a posição do PCP?!
Mas
isso não é possível. Tratam-se de duas concepções de democracia. É uma
grande diferença. Houve referendo, o Bloco foi contra, mas a partir do
momento que houve, empenhou-se, fez campanha e perdeu. Eu, também não
gostaria, se tivesse ganho, nas mesmas circunstâncias de ver alterado
pela Assembleia, uma decisão popular, mesmo que através de uma maioria
pouco participada e por pequena margem.
O PCP opõem-se à
realização de um novo referendo, votou contra, juntamente com os
partidos da direita. Acha que o parlamento tem uma maioria suficiente
favorável à alteração da lei. Claro que tem. Mas o PS não vota a favor,
sem submissão a um novo referendo. O Bloco de Esquerda, também defende
um novo referendo. Defendeu-o logo a partir do momento em que o
primeiro se realizou. Concedendo um tempo. Considerou e bem que não
devem ser maiorias circunstanciais na Assembleia a desrespeitar uma
vontade expressa nas urnas. Amanhã a maioria é outra e essa maioria,
faz o mesmo e volta tudo ao início. Não pode ser.
Já passaram
uns anos largos sobre o primeiro referendo. Está na altura de devolver
a palavra aos portugueses. Muita coisa mudou, entretanto. Acredito que
um novo referendo vai alterar a lei. O PS não pode adiar mais. O
referendo já podia e devia ter sido realizado. Se mais obstáculos forem
criados, aí sim. a assembleia deve intervir. De mal o menos. O PS
anuncia querer o referendo no início de 2007, depois de não ter feito
muito para se realizar, ainda este ano. Entretanto, segundo sei, o
Bloco já esgotou o prazo que a si próprio teria dado e afirma votar a
favor de uma decisão na AR se alguém o propor. Contudo, é sabido que
está condenado à nascença. O PS não votará a favor. Tal como PCP votou
contra este segundo referendo. Se dependesse só destes dois partidos, a
ter em conta as suas votações, nem tínhamos votação na AR, nem tínhamos
referendo.
Convém fazer estas distinções e estes
esclarecimentos. E o PCP que escolha os alvos certos e não queira fazer
aproveitamento político de uma situação dramática das mulheres e
famílias.
(publicado em Julho 6, 2006)
20 - Sim a uma “aconselhamento” prévio à IVG
Subsequente ao referendo ao aborto
subsiste uma matéria, recorrente no debate, de um processo de
aconselhamento, prévio à interrupção voluntária da gravidez. A maior
parte das vozes do Sim, manifesta-se agora contra. Nunca ouvi ou li e
participei em muitos debates na campanha, nenhuma oposição a este
procedimento, vou ainda mais longe, os defensores do Sim, entre os
quais me incluo, abraçaram este argumento, como um meio de assistência
à mulher, na estruturação da sua decisão.
O aconselhamento é
encarado pela maioria dos defensores do Sim, como uma perversão e um
constrangimento, à livre opção da mulher, consagrada no referendo.
Sinceramente, não percebo os desassossegos por esta figura do
aconselhamento. Uma consulta de aconselhamento não é uma formulação
feliz por fazer presumir uma intromissão na livre opção da mulher. Mas
não é isso que se deve pretender. Chamar-lhe-ia antes, à falta de
melhor definição, consulta de conhecimentos.
No meu entendimento
deveria ser obrigatória a presença numa consulta de conhecimentos, por
um comité de especialistas das áreas sociais, psicológicas e de saúde,
tendente a proporcionar meios auxiliares, para uma decisão mais
ponderada e não para tentar dissuadir a mulher a renunciar à sua opção
de interromper a gravidez, direito irrenunciável e único da mulher.
Se
achamos a mulher capaz, por si, de tomar em liberdade e consciência,
uma decisão responsável, na sua opção de abortar, não devemos temer
agora, uma consulta prévia à interrupção voluntária da gravidez, para
munir a mulher de todos os dados, susceptíveis de melhor consolidar uma
decisão.
Posto isto, defendo, por esta ordem, uma consulta de
comité de especialistas, uma consulta de verificação médica das
condições exigidas, um período pequeno de ponderação, a interrupção da
gravidez.
Por fim defendo que a IGV deva ser feita no SNS,
gratuita, para rendimentos inferiores, suportado em parte para
rendimentos médios e pagos para rendimentos elevados. Nas clínicas
privadas e autorizadas, preconizo o mesmo tipo de pagamentos, se
encaminhados pelo SNS. Se a IVG correr à margem do SNS, os encargos
devem correr por quem o utilize nessas circunstâncias.
(publicado em Fevereiro 18, 2007)
19 - Querer ganhar na secretaria
Antecipando um cenário de uma vitória
do Sim no referendo questionei a legitimidade dos perdedores invocarem
a figura do carácter vinculativo, para colocarem em causa, a expressão
política do resultado. Sabia que seria assim. O título do meu artigo
era elucidativo. O NÃO à despenalização do aborto vai ganhar …perdendo? Não deve! Não podia ser mais certeiro na análise.
Logo
na noite das eleições, os apoiantes do Não, disseram que o resultado
não é vinculativo, pretendendo condicionar e tirar partido de uma lei
desajustada. São pouco sérios. Parecem esquecer-se que o resultado do
primeiro referendo, também não foi vinculativo e que apesar de haver
uma maioria de votos favoráveis a uma alteração no parlamento, os
partidos favoráveis à alteração, não quiseram alterar a lei, com
excepção do PCP, em nome do respeito politico pela decisão maioritária
dos eleitores.
Tinham razão o PS e o Bloco de Esquerda ao
defenderem um novo referendo. A decisão votada pelos cidadãos dá mais
força à lei e “impede” uma alteração no parlamento se a correlação de
forças se alterar no futuro. E diviso mesmo com grandes dificuldades
uma nova proposta de referendo sobre o aborto depois de um voto de
despenalização. Conseguem imaginar a nova pergunta? “Concorda que seja
penalizado o aborto que foi despenalizado no referendo anterior”. Não
me parece que tal se vislumbre a curto ou médio prazo. A despenalização
veio para ficar!
Posto isto, continuo a defender alterações na
lei do referendo. Defendo que continue a valer um carácter vinculativo,
mas de valor inferior, à volta dos 30 por cento. O referendo assume uma
forma de democracia participada. Com o referendo estamos a dar
indicações concretas sobre questões muito concretas. Não estamos a
passar a responsabilidade para os outros. Estamos nós a decidir e isso
acrescenta qualidade à democracia. Mas colocar a fasquia a 50 por cento
em vez de apelar à participação, desincentiva e favorece a situação
vigente. Quem não deseja uma alteração está em vantagem posicional.
Ganha de três formas: a) não havendo a participação vinculativa b)
ganha mesmo ganhando quem pretende alterar, desde que não tenha os 50
por cento c) ganha tendo a maioria de votos, sendo ou não o resultado
vinculativo. Não é justo e cria muitas dificuldades à mudança.
Em
nome do instituto do referendo, da democracia participada, deve ser
promovido a alteração da lei, baixando o patamar de exigência de
participação. Não concordo com algumas posições que defendem ou o fim
do referendo ou a maioria simples. No primeiro caso estaríamos a deixar
cair um instrumento de participação qualificada, no segundo caso a
desvalorizar a importância do resultado do referendo para promover
mudanças consistentes e duradoiras.
(publicado em Fevereiro 12, 2007)
18 - O bom senso venceu
Não há mais para dizer. O bom senso
ganhou. Não fazem sentido agora os ressabiamentos. Este debate
terminou. Acabou a penalização das mulheres. O sociedade portuguesa
ganhou dignidade. Agora devem ser outras as nossas exigências. Agora é
preciso tornar o aborto raro, acabar com a clandestinidade, dar apoio e
aconselhamento médico e psicológico, investir na educação social a
sério sem condicionalismos morais ou religiosos. O país ganhou respeito
e respeitou as mulheres. Valeu a entrega, o esforço e a dedicação,
nesta vitória da dignidade humana sobre a intolerância.
(publicado em Fevereiro 12, 2007)
17 - Os Abortos de alguns Não’s
Ontem estive presente em mais um
debate sobre a despenalização do aborto, promovido pela Assembleia
Municipal de Viana do Castelo. Quando vou a estes debates não vou a
pensar encontrar argumentos que mudem a minha opinião inabalável no
Sim, mas vou com a mente aberta, tentar perceber o que leva alguém a
defender o Não, usando argumentos sérios, sem fanatismos, que me
permitam perceber e respeitar quem pensa de maneira diferente.
Nos
dois debates a que assisti e participei fiquei muito desiludido com a
participação e os argumentos do Não. Azar meu concerteza, porque já
ouvi e li, as maiores barbaridades, mas também, reconheço, li e ouvi
posições respeitáveis, ancoradas numa cultura de vida, filosófica ou
religiosa, que merecem da minha parte, tanto de compreensão como de
discordância.
Ontem ouvi o pior do Não, a face mais extremista e
mais intolerante. Não vale a pena cansar os leitores, com os argumentos
recorrentes de que as mulheres são criminosas, que matam seres
indefesos, mas ontem, foram mais longe, não só as mulheres que decidem
interromper a gravidez são assassinas, assim com todas as letras, são
egoístas que abortam por desporto, abortam por impulso, abortam para
não ficarem com estrias, como também quem apoia as mulheres, quem apoia
o Sim, são eles também, uns criminosos em potência, uns cúmplices da
morte de pessoas humanas. Fiquei arrepiado e não consegui calar a minha
revolta e indignação, tal como outros assistentes ao debate.
Aquela
gente estava no debate errado. Eles queriam mais. Queriam o agravamento
das penas, para dissuadir o crime. Queriam a pena máxima, como a que é
aplicada a um qualquer cruel assassino. Não estou a inventar nada, isto
foi dito de forma indirecta e algumas vezes de forma directa.
A
defesa da vida, a protecção e aconselhamento das mulheres, não se faz
na clandestinidade. Não se faz fora do sistema de saúde, sem apoios,
sem segurança, às escondidas.
O que importa saber é como
combater o aborto clandestino, como ajudar as mulheres na sua decisão,
para uma maternidade e paternidade responsável, mas a isso não são
capazes de responder com seriedade. Um casal tem o direito de planear a
sua vida, para que os filhos que onde seguir-se, quando os pais
desejarem e tiverem as condições que considerem adequadas, sejam
criados com o carinho e o amor indispensável para um crescimento e um
desenvolvimento harmonioso e assim lhes proporcionar uma vida com mais
segurança e apoio.
Obrigar alguém a levar para a frente uma
gravidez indesejada, uma gravidez inoportuna, extemporânea, ou
oferecer-lhe um aborto clandestino e o rótulo de criminosa é de uma
violência atroz, de uma desumanidade sem palavras. Ninguém de bom senso
pode defender que a mulher merece ser castigada ou sequer a censura
social. Todos nós, por experiência própria, por conhecimento de
situações na nossa família, no rol de amigos ou dos amigos dos amigos,
sabemos de mulheres que abortaram e a sociedade não foi à Polícia a
correr denunciar essas pessoas. A sociedade civil não as considera
criminosas, assassinas, ninguém é capaz de afirmar que por causa disso
as mulheres são piores mulheres, piores mães.
Acabe-se com esta
vergonha, para acabar com o aborto clandestino e para diminuir o número
de abortos e para finalmente ajudar as famílias, a ter um acesso, sem
vergonha, sem temores, livremente, a centros de apoio e aconselhamento,
e os jovens a ter acesso a uma educação sexual sem preconceitos e sem
tabus, morais ou religiosos, desde a mais tenra idade.
Apenas votando no Sim as coisas podem mudar.
(publicado em Fevereiro 6, 2007)
16 - As mulheres não são criminosas. É preciso mudar a lei. Para despenalizar, para descriminalizar, para acabar com o aborto clandestino
DOs deputados do Não nunca
apresentaram na Assembleia da República, antes e depois do primeiro
referendo, qualquer proposta para a despenalização das mulheres. Os
deputados do Não, é preciso lembrar, votaram a favor de um referendo
para os portugueses nos termos em que é pergunta é feita, para
afirmarem se pretendem ou não despenalizar a interrupção da gravidez
até às 10 semanas se realizada num estabelecimento de saúde autorizado
e por opção da mulher. Estes sãos os factos.
Quando pessoas com
responsabilidades, como Marques Mendes ou Marcelo Rebelo de Sousa, (que
aprovaram a pergunta – a mesma do primeiro referendo) dizem agora que a
pergunta é enganosa e pouco claro, estão a mentir, a gozar com a nossa
inteligência e memória, é um sinal de má-fé e de intrujice rasteira.
Num
primeiro tempo os defensores do Não, pretenderam levar o debate, para a
“ defesa “ da vida, mas confrontavam-se com as suas próprias
contradições; é que a “defesa” da vida, não se compadecia com
discriminações selectivas. A “defesa” da vida, nesse contexto, não
poderia, permitir o “abandono” da vida, no caso de uma má formação do
feto ou devido a uma violação. Apenas casos extrordinários como José
César das Neves ou Zita Seabra, é que acham que a mulher não poderia,
em nenhum caso, pôr fim a essas gravidezes, de uma forma cruel e
atentatória da dignidade humana da mulher. Preferiam que uma mulher
violada, contra a sua vontade, “ carregue” no seu corpo a memória de
uma violação.
Agora, sem vergonha, Marques Mendes, Bagão Félix e
Marcelo Rebelo de Sousa, esquecendo as suas responsabilidades
governativas, querem distorcer a pergunta, confundir os que na
tendencialmente, poderiam vir a votar Sim, dizendo que se o Não ganhar
vão apresentar propostas de despenalização das mulheres. Mentira.
Mas
Marques Mendes, Bagão Felix, Marcelo Rebelo de Sousa e outros, escondem
o essencial; é que vai ser o resultado do referendo que vai ditar ou
não a alteração do artigo 140 do código penal que pune com uma pena de
três anos de cadeia e a nódoa de criminosas para toda a vida nos
registos judiciais, a quem fizer um aborto, isso ninguém lhe tira.
Para alterar a lei só votando Sim.
O
voto Não com esta esperteza saloia de que vão despenalizar o aborto, o
que pretendem é mitigar, confundir, desmobilizar e vão continuar a
considerar criminosas as mulheres que recorram ao aborto, vão continuar
a empurrar as mulheres para a clandestinidade, com todas as
consequências que daí recorrem.
Para quem está “preocupada” com
a vida, querem atirar para debaixo do tapete o flagelo de mulheres que
vão continuar silenciosas, “culpabilizadas”, solitárias, fazer o aborto
sem acompanhamento, sem cuidados, inseguro e sem lhes ser dada a
possibilidade de desabafar, de conversar, de colher aconselhamentos, de
especialistas de técnicos de saúde.
Esta gente nunca pensou que
o aborto é melhor combatido, dentro do sistema de saúde, com
esclarecimento, com acompanhamento, com aconselhamento, apenas possível
num quadro de legalização excepcional? O que esta gente não que é
acabar com o aborto clandestino. O que esta gente não quer é que estas
mulheres deixem de ser consideradas criminosas. O que esta gente quer é
fazer caridadezinha, a essa classe de “sub humanos”, de “máquinas” de
fazer filhos.
Tenham vergonha e usem argumentos sérios. O que é
preciso saber é como o Não quer resolver o problema das mulheres
grávidas que pretendem cessar a gravidez (não usem paliativos, são
mulheres que não querem prosseguir uma gravidez e ponto final); como
pretendem resolver o problema da clandestinidade do aborto, sem
condições, sem segurança, sem acautelar a saúde da mulher.
Porque
o aborto nunca irá acabar, legal ou clandestinamente, importa dar as
melhores condições, para uma maternidade e paternidade consciente,
responsável, escolhida, salvaguardando a dignidade da mulher, criando
condições, objectivas, para que o aborto progressivamente diminua. É
isto que está em causa! Mas claro para quem tem muito dinheiro basta ir
aqui ao lado a Espanha e fazer um aborto. Já os mais pobres, os
desfavorecidos da vida, esses são obrigados a abortar clandestinamente.
(publicado em ...)
15 - Os defensores do Não usam argumentos falaciosos
Se estão empenhados na “defesa” da
vida como dizem, para serem coerentes, deviam exigir, antes de mais, a
alteração da actual lei, sabido que admite a realização do aborto em
casos de violação, má formação do feto, perigo de vida da mulher etc. A
“defesa” da vida não se compadece com discriminações.
Na verdade
eles não estão preocupados com a “defesa” da vida. Por trás disto estão
preconceitos éticos, morais, religiosos e muita hipocrisia. Até consigo
compreender quem, por razões de uma formação religiosa e um conceito de
vida, em nenhuma circunstância, aceite que se faça um aborto. Mas é da
mais cínica hipocrisia, colar o rótulo de criminosas às mulheres e a
quem defende a livre opção das mulheres, por uma maternidade desejável,
consciente e responsável e ao mesmo tempo, aprovarem a “morte” do feto
se tiver má formação ou se resultar de uma violação, por exemplo.
Se fossem verdadeiras as suas razões os defensores do Não deveriam defender o Sim.
A
criminalização do aborto empurra as mulheres, para as mãos de médicos
ou parteiras, para um aborto, sem hesitação, sem escrúpulos, inseguro e
colocando a saúde ou a vida da mulher em perigo, a troco de um
pagamento, pura e simplesmente.
A legalização do aborto até às 10 semanas, defende melhor quem é contra o aborto.
Um
aborto realizado num estabelecimento de saúde, com apoio psicológico,
acompanhamento médico, ajuda de especialistas da saúde, permite
acompanhar o processo, perceber as razões, aconselhar, proteger a
mulher, ajudar a mulher a tomar a melhor decisão.
a) só não vê
isto quem se recusa a ver b) quem se recusa a pensar por razões
religiosas. c) quem defende o não por razões obscuras, interesseiras e
hipócritas.
(publicado em Janeiro 30, 2007)
14 - Todas as energias para o SIM
Até ao dia 11 de Fevereiro todas as
minhas energias estão concentradas na campanha do referendo à
despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
Porque as
mulheres que decidem abortar não são nenhumas criminosas é preciso
votar no Sim. Porque não quero empurrar as mulheres para o aborto
ilegal, sem condições de ssegurança e com graves riscos para a sua
saúde, é preciso votar sim. Porque quero acabar com a devassa da vida
privada, os julgamentos, eventualmente a prisão, é preciso votar sim.
Porque quero que as mulheres tenham apoio psicológico, médico,
familiar, na sua decisão, é preciso votar sim! Porque a maternidade e a
paternidade deve ser plenamente assumida e não imposta é preciso votar
sim. Porque a repressão sobre as mulheres não resolve o problema do
aborto é preciso votar sim. Porque não creio no aborto irresponsável e
respeito a consciência individual e da dignidade das mulheres é preciso
votar sim. Finalmente porque é necessário acabar com falsos moralismos,
hipócrisias, avançar com a educação sexual, sem tabús, sem restrições,
para assegurar uma maternidade consciente, esclarecida e assumida, é
preciso votar no sim!
Até ao dia 11 de Fevereiro todos os que
defendem o Sim devem estar nas ruas, sem receios, sem medos, com um
autocolante ao peito, assumindo com clareza a sua posição, porque ao
contrário do que dizem os defensores do Não, nós os do Sim defendemos a
vida, não somos criminosos, nem assassinos, ou sequer irresponsáveis, a
maioria de nós tem filhos, conhece a emoção de ter um filho desejado.
Até ao dia 11 de Fevereiro, apelo à participação de todos, em todas as acções dos movimentos do sim! Eu digo presente!
(publicado em ... )
13 - Obrigar uma mulher a ter um filho indesejado é um acto de terrorismo
Os defensores do Não estão a inquinar
o debate sobre a pergunta que vai a referendo. As coisas são muito
simples. A lei já prevê excepções em que é permitido o aborto. Agora
pretende-se acrescentar mais uma excepção. Permitir o aborto legal até
às 10 semanas. Não para obrigar as pessoas a abortar, mas para proteger
as mulheres que se vêem obrigadas a abortar, do enxovalho público, dos
julgamentos, da devassa da sua vida privada, de serem condenadas ou até
presas. Só isso.
Obrigar uma mulher a ter uma criança não
desejada é um acto de terrorismo. Manter uma lei que condena as
mulheres por fazer um aborto é empurrar essas mulheres para o aborto
clandestino e para a forte possibilidade de contrair graves riscos de
saúde e até pôr em causa a própria vida.
A discussão sobre o
momento em que há vida humana é uma discussão interessante, mas neste
referendo apenas pode interessar aos especialistas. Não interessa a
quem tem de decidir o que fazer perante uma gravidez indesejada. É uma
discussão interessante sem dúvidas mas para outro momento.
Para
a mulher ou um casal, que deseja ter um filho, que almejam ser mãe e
pai, a “vida” começa no instante em que fazem amor com esse fim, começa
no dia em que o resultado da gravidez é positivo. Para eles começa aí a
vida do bebé. A vida do filho desejado. Todos os segundos, a partir
desse momento, são segundos de vida do seu bebé.
Já quem
engravida sem querer, a “vida” só chega no dia do parto. Para elas
interromper a gravidez, é impedir que nasça uma vida não desejada. São
estes os dilemas com que as mulheres se confrontam. Quem faz um filho
por gosto, a vida começa na concepção. Quem engravida sem desejar a
vida começa no parto.
O resto é discussão científica, filosófica, médica. Não é isso que vai contar neste referendo. Não é isso que está em causa.
O
que está em causa é dizer sim ou não a uma lei que condena as mulheres
ao julgamento e a uma pena até 3 anos de prisão, por ter decidido
interromper a gravidez até às 10 semanas. Tudo o resto é de uma
profunda hipocrisia, em minha opinião.
Nota: No próximo sábado,
pela 10 horas, na rua da Bandeira em Viana do Castelo, é inaugurada a
sede do núcleo local do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo
Sim, seguido de uma distribuição de comunicados à população. A sessão é
aberta à participação dos interessados.
(publicado em Janeiro 23, 2007)
12 - Alguém me explique que eu não estou a perceber
Os movimentos do Sim estiveram todos
em Aveiro. Hoje, as divergências políticas e ideológicas não contaram.
Vi deputados do PSD, do PS, do Bloco de Esquerda. Hoje só vi as
pessoas. Vi muitas mulheres, vi homens, também vi muitos jovens, vi
pessoas mais idosas, vi muitas raparigas novas. Hoje vi todas as
pessoas com uma única preocupação. Oferecer a sua disponibilidade e o
seu comprometimento, com o Sim, cuidando de levar o esclarecimento e o
debate, de forma a colocar um fim, a uma lei que pode levar as mulheres
à prisão. O espaço do Centro Cultural de Congressos em Aveiro encheu
com a presença de cerca de um milhar de pessoas para dizer Sim à
despenalização do aborto até às 10 semanas.
Quando vejo esta
unidade em torno de um projecto concreto, não consigo perceber que
Jerónimo de Sousa, marque para o mesmo dia uma iniciativa partidária e
faça este tipo de declarações “podemos
não ter tanto dinheiro como outros para colocar grandes cartazes a
favor do “Sim”, mas temos pessoas empenhadas e generosos que vão lutar
na batalha do referendo”. Mas que sentido faz esta afirmação? A
quem se dirige Jerónimo de Sousa? Porque diz isto Jerónimo de Sousa? De
resto como compreender, do mesmo modo, que diga que “se o Não vencer
será uma derrota do PCP, mas também para as mulheres portuguesas”. Mas como? Não será que a ordem está invertida?
Gostava de ver o PCP mais envolvido e a deixar-se de remoques … doutras guerras.
(publicado em Janeiro 15, 2007)
11 - Pela despenalização do aborto …por amor!
Conversa de gabinete, esta tarde.
- E quanto ao aborto?
- Sou contra.
- Contra!..
- Sim, contra!
- Contra!?..
- Sim, contra, mas voto sim à despenalização.
- Ah, claro …tens razão.
Também
esta tarde vi num blogue do Não, uma imagem muito linda, mesmo
comovente. Uma Mãe linda de corpo seminu, envolta num lençol branco, o
seio a adivinhar-se, com um bebé de semanas ao colo, também ele nu,
também ele lindo, um cortinado de seda ao fundo, também branco a
realçar os corpos. Uma fotografia linda, como lindas são todas as mães,
como lindos são todos os bebés, como lindas são todas as imagens de
mães com os seus bebés. Mas aquela imagem é mesmo muito linda, mesmo
comovente. Podia ficar por aqui e todos ficariam com esta imagem linda
que Vos pretendi transmitir. Uma imagem do belo. Mas não. Em cima das
imagens, umas palavras aparentemente imaculadas, mas umas frases
assassinas. Uma facada nas costas. Umas vergonhosas insinuações.
Há
uns anos, num debate, Francisco Louçã, replicando a Paulo Portas,
disse-lhe asperamente, qualquer coisa parecida com isto “cale-se, você
não sabe o que é ter um filho”, como resposta à insinuação de que os
defensores do Sim, à despenalização, eram uns infanticidas. Uns
assassinos. Lembro-me de muitos colegas no trabalho, terem ficado
encantados com a resposta de Louçã. Ele estava a precisar, diziam-me os
colegas. Eu não concordei com a expressão, embora compreendesse muito
bem a reacção de Louçã, perante tamanha desfaçatez. Louçã tinha e tem
uma filha. Hoje, apeteceu-me, fazer o mesmo que Louçã. Também eu tenho
dois filhos. Deixar uma carrada de insultos. Usar o vocabulário mais
ordinário. Não tanto até pelo que é dito, mas pela ignóbil insinuação
que consigo suportar menos. Mas cristãmente, apesar de não ser nem
cristão, nem religioso, preferi calar-me, deixá-los em paz e com muitos
problemas de consciência …se a tiverem.
A imagem está aqui.
(publicado em Janeiro 10, 2007)
10 - O NÃO à despenalização do aborto vai ganhar …perdendo? Não deve!
Para se ganhar umas eleições, em
regra, é preciso ter a maioria dos votos. Diz-se a propósito, por um
voto se ganha por um voto se perde. Mas nem é sempre assim. Há
situações que exigem mais do que ter a maioria dos votos. No parlamento
nacional, por exemplo, certas iniciativas legislativas, requerem, para
serem aprovadas, os votos favoráveis de 2/3 ou 4/5 dos deputados. Já no
caso dos referendos é exigido uma participação superior a 50 por cento.
São aquilo que vulgarmente se designa por maiorias qualificadas.
A
regra do referendo, penso ter mais desvantagens que benefícios. É
verdade que a exigência de uma maioria de participantes, fortalece o
significado da alteração. Mas por outro lado, cuida desigualmente as
partes em confronto, favorecendo o “status quo” em detrimento da
mudança.
Vejamos o caso do referendo sobre o aborto, segundo este entendimento:
O
NÃO para “ganhar” não precisa ter mais votos que o SIM, nem precisa ter
uma maioria de participação superior a 50 por cento. Bastará que a
participação no referendo seja inferior a 50 por cento. Já o SIM
precisa não só de ter a maioria de votos, como uma participação
superior a 50 por cento.
Uma desigualdade evidente. O NÃO ganha
de três maneiras possíveis. Ganha se a abstenção for superior a 50 por
cento; ganha se o SIM tiver mais votos, mas não conseguir 50% de
participação, ganha se tiver maior número de votos, independentemente
da participação.
Esta situação não é justa e não me parece
defensável, não obstante estar a ganhar força a ideia (já acolhida pelo
PS e PSD) de que se o SIM ganhar sem a participação maioritária, o
parlamento não deve mexer na lei.
Como já exprimi noutros
artigos não concordo com esta interpretação da regra do referendo. A
Instituição do referendo propôs-se dar força, representatividade e
participação cívica, em determinadas matérias, menos consensuais.
Por
isso tenho-me batido que se o referendo não for, após duas consultas,
vinculativo, significará que a maioria do povo português, optou por
transferir para os deputados do País a responsabilidade da decisão.
Parece-me
ser esta é a única posição coerente com o espírito da lei, caso
contrário seria desajustada nos seus propósitos; apelativa da
participação cívica, da discussão livre, profunda e esclarecedora e da
responsabilidade cidadã.
Não sendo assim, quem pretende manter a
situação, basta-lhe não comparecer. Não comparecer ao debate, não
comparecer à votação, fazer uma campanha pela negativa, ganhar na
secretaria.
A ser como se ouve e lê o Instituto do referendo
deixa de fazer sentido. Para isso seria preferível acabar com o
carácter vinculativo, valendo a maioria simples dos eleitores ou
mantendo o vinculo, fazendo descer a obrigatoriedade da participação,
aí para os 30 por cento.
(publicado em Janeiro 4, 2007)
9 - Qual deveria ser a condenação?
Uma mulher diz publicamente “eu
assassinei” por duas vezes. Só de uma vez “matei” dois gémeos. Outra
mulher também confessa que “matei um bebé”. Outra diz que em trinta
anos “matou” muito filhos.
Estas mulheres “assassinas” nas suas
próprias palavras estão livres. Arrependidas, mas livres. Pedindo
perdão, mas livres. Será que deviam estar livres ou deviam estar presas?
O
assassinato não é um crime grave punível com o mais alto castigo?
Porque será que estas mulheres estão livres? Simplesmente porque
fizeram um aborto clandestino ou num país onde estava legalizado.
Se
fosse em Portugal e os tribunais cumprissem a lei estariam presa. Num
outro país provavelmente poderia ser condenadas à morte por
“assassínio” declarado.
Mas não … estas pessoas não são
assassinas. São pessoas que recorreram ao aborto, embora tendo em conta
as suas próprias afirmações, sei lá, se calhar até, deixem-me ser
mauzinho, mereçam esse impropério, tendo em conta que quem faz um
aborto não o faz a pensar que vai “matar” alguém, mas sim evitar que
uma vida surja. Estes testemunhos foram feitos por mulheres que
abortaram e se dizem arrependidas e foram aproveitados e apresentados
numa sessão promovida por um movimento pelo NÃO ao aborto.
Se
como dizem as próprias, “acompanhadas” pelo grupo do NÃO, são umas
assassinas, o lugar certo seria mesmo a cadeia. Á luz da tese dos
defensores da não despenalização do aborto, estas mulheres deveriam
mesmo ser condenadas e não haveria pedidos de perdão, ou arrependimento
que lhes acudisse.
Ao contrário do querem fazer crer não lhes
inquieta a consciência. Se tivessem escrúpulos não pediam perdão,
clamavam por compreensão com as mulheres que decidam abortar, não
pediam a condenação, não empurravam para o recurso ao aborto
clandestino, pediam apoio médico, apoio de profissionais de saúde,
pediam equipamentos apropriados, pediam apoio psicológico, pediam
segurança e higiene na interrupção da gravidez. Pediriam condições para
as mulheres decidirem em consciência, em liberdade, reclamavam apoios
de toda a natureza para auxiliar nas decisões.
Quando alguém
defensor do não à despenalização, coloca no mesmo plano “os
assassínios, o abuso das crianças e a interrupção da gravidez” está
tudo dito sobre a doutrina moral destes defensores da penalização das
mulheres.
Dizem eles que interromper a gravidez até às 10
semanas é um crime. E na mesma lógica, interromper a gravidez a
qualquer momento por violação, por má formação do feto, colocar em
risco a vida da mãe, não é também “matar”?
Despenalizar por amor é votar sim!
(publicado em Dezembro 7, 2006)
8 - Na questão do Aborto, devolvo a acusação. Terrorista …é o Papa
No supremo lugar do opulento e
imperial Vaticano, amparado por uma corte de súbditos escrupulosos e
dogmáticos, o capataz do clero, mais os cardeais e patriarcas,
arcebispos e bispos, padres e diáconos, mais acólitos, beatos ou
beatas, na homilia do Dia Mundial da Paz, veio dizer disparates, em
mais uma campanha contra o aborto.
Com a pose e a voz melosa
conhecidas e encenadas, o Chefe da Igreja, afirmou que o aborto (e
também a eutanásia e as pesquisas sobre embriões) é comparável ao
terrorismo ou à morte por fome. Estas afirmações infames, não podem
passar sem o meu mais vivo repúdio e indignação.
Uma Igreja
católica que cometeu os maiores crimes de que há memória e em nome do
purismo religioso, de uma superioridade moral, perseguiu e matou,
milhões de pessoas. Uma religião que nas Cruzadas massacrou,
assassinou, decapitou, milhares e milhares de pessoas. Que na
Inquisição, torturou, queimou vivas mais de um milhão de pessoas,
especialmente judeus, muçulmanos, hereges ou “bruxos”. Esta Religião,
esta Igreja vem dar lições de moral.
Esta Igreja, este Papa, não
respeita sequer muitos dos seus crentes; os que defendem a actual lei e
as excepções que podem levar a um aborto ou os que querendo ir um pouco
mais longe e recusam ver a mulher julgada, humilhada e previsivelmente
condenada, por terem decidido abortar, certamente por razões muito
ponderosas, defendem o sim à despenalização do aborto, nos termos da
pergunta levada a referendo.
Esta Igreja e este Papa vêm chamar
de criminosos de terroristas, quem defende o aborto em determinadas
circunstâncias. Vem elevar à condição de criminosos, todos os que
defendem a despenalização do aborto realizado até às 10 semanas, por
decisão da mulher e se realizado em estabelecimentos de saúde
certificados.
A Igreja opulenta e seus servidores, vivem
explorando a boa fé e a crença dos seus fiéis. A Igreja que chama de
criminosos quem aborta é a mesma que não permite o uso do preservativo,
a pílula, ou outro meio eficaz de contracepção é uma Igreja hipócrita e
intolerante.
Eu vou votar sim à despenalização do aborto.
(publicado em Janeiro 1, 2007)
7 - Subtilezas políticas desonrosas
Helena Roseta e Manuel Alegre
introduziram o tema no congresso do PS. No caso de uma maioria de
eleitores não se apresentar ao referendo, o partido deve apresentar uma
proposta de despenalização do aborto. Pelo que li e ouvi a posição de
Helena Roseta e Manuel Alegre teve o apoio dos congressistas, mas os
dirigentes já se exprimiram em sentido contrário. Só legislam se ganhar
o sim. Ora isso é estar validar referendos não vinculativos é
desrespeitar as leis que os próprios produziram ou apoiaram.
A
posição daqueles dois políticos vem ao encontro do que tenho defendido
aqui. Se depois de duas consultas sobre a interrupção voluntária da
gravidez a maioria dos eleitores se recusar a votar, a vitória desta
abstenção tem um significado único e que é preciso valorar:
a) os
portugueses não querem pronunciar-se sobre conceitos de vida, sobre os
valores morais e éticos de quem tem de fazer opções pessoais e
irrefutavelmente íntimas.
b) querem devolver aos políticos a decisão irrenunciável de legislar sobre o assunto, tal como já o fizeram antes.
O PS e os restantes partidos não podem fazer “ouvidos de mercador”.
Os
legisladores ao decidiram não tornar vinculativos referendos sem a
presença da maioria dos eleitores, não o fizeram inadvertidamente.
Fizeram-no como salvo-conduto para uma decisão participada e
maioritária da população. Fizeram para auscultar o verdadeiro sentir
dos portugueses.
Por isso, vença o sim ou vença o não, sem essa
participação maioritária, os partidos e os políticos não podem fugir às
sua responsabilidades políticas e quem é favor da despenalização do
aborto deve apresentar propostas nesse sentido. E mais nada!
(publicado em Novembro 12, 2006)
6 - Nada a fazer
Os defensores da “vida” e do NÃO ao aborto estão contra a pena de morte a Sadam?
Espreitei por aí na blogosfera e não vislumbrei uma tomada de posição contrária (ou a favor) sobre o assunto.
Tão magnânimos sobre o respeito pela “vida humana” no tocante ao aborto e tão convenientemente esquecidos sobre a pena de morte.
Nada a fazer!
(publicado em Novembro 8, 2006)
5 - Errou Francisco Louçã
Segundo o DN de hoje, Francisco Louçã,
terá afirmado a propósito do aborto que “do lado do SIM está a
humanidade e a convergência e do lado NÃO a intriga política e a agenda
interna dos partidos”. Não concordo e acho a afirmação um erro político.
Já
disse a propósito do referendo ao aborto que não consigo compreender as
razões de um voto NÃO. Compreendo que os defensores do NÃO se batam
contra a prática do aborto em qualquer situação em nome de um conceito
doutrinário, ortodoxo ou moral da vida. Mas, não compreendo que não
compreendam que há outros com uma concepção diferente que merecem igual
respeito e compreensão. A sua liberdade de não ao aborto… é a liberdade
de não abortarem. Não é a liberdade impedir o ao aborto em determinadas
condições a outros com concepções doutrinárias da moral e da vida,
distintas.
Mas também não concordo, desta vez, com Francisco Louçã.
Não
me parece que as coisas possam ser extremadas, colocando do lado SIM a
“humanidade e a convergência” e do lado NÃO a “intriga política e
agenda política do outro”. Acho que do lado SIM e do lado NÃO coexistem
ambas.
Em resumo: Não subscrevo a afirmação de Louçã. Acho-a
imprudente. Não contribuiu para o esclarecimento e prejudica a posição
dos defensores do SIM. Enfim, um erro político não muito habitual em
Francisco Louçã. Não mais do que isso, em minha opinião.
Louçã
um político prevenido, um político sério, um político e um homem
empenhado, nas causas dos mais fracos, foi “traído” pela sua
generosidade e pela vontade em resolver um problema grave e
inexplicável existente na sociedade portuguesa, o único da União
Europeia, em que as mulheres são perseguidas e humilhadas na sua
carácter.
(publicado em Novembro 6, 2006)
4 - Voltando à vaca fria
E se a abstenção for maioritária?
Como
é sabido se a abstenção, no referendo ao aborto, for superior a 50 por
cento o resultado não é vinculativo. No referendo de há oito atrás, o
parlamento optou por “respeitar” o resultado e não mexeu na lei. Em
minha opinião fez bem. Sempre foi um primeiro referendo e a matéria era
sensível. Agora é diferente. Não por ser um segundo referendo mas por
ser um segundo referendo sobre a mesma matéria. Se a maioria dos
eleitores optar por não ir depositar o seu voto na urna, o parlamento
tem de de tomar em mãos a decisão. Não ganha o SIM nem ganha o NÃO.
Quem vence é a abstenção. E a abstenção, neste caso, significa devolver
aos deputados a responsabilidade de decidir.
O ministro António
Costa disse que se o SIM ganhar, mesmo podendo não ser vinculativo, o
parlamento vai legislar nesse sentido. Mas o ministro e os partidos não
podem ficar por declarações deste tipo. E se o NÃO ganhar nas mesmas
condições o que vai fazer o parlamento? Os políticos devem ser mais
claros.
O que tem de ser dito é que vença o SIM ou vença o NÃO,
não havendo um a participação maioritária de eleitores, o referendo não
é vinculativo e o parlamento tem de respeitar a lei e ser ele a
decidir. O respeito pela lei é essencial para futuro actos
referendários.
(publicado em Outubro 28, 2006)
3 - Aborto. Resolver no referendo ou resolver no parlamento
Senão houver uma participação
qualificada no referendo sobre o aborto e independentemente do
resultado, o parlamento tem de tomar para si a decisão de legislar.
Um
referendo só é vinculativo com mais de 50 por cento de votantes. Está
na lei. Se não votarem mais de metade dos eleitores, ganhe o sim ou
ganhe o não, não vale de nada o referendo. Vale apenas como referência;
que mais de metade dos eleitores, não quer saber do questão ou acha que
não é da sua competência decidir sobre um problema da intimidade
pessoal.
Sob pena de se institucionalizar a subordinação a um
referendo desconforme com a lei, a Assembleia da República, deve
legislar, obrigatoriamente, independentemente do resultado eleitoral,
para não tornar válido um acto, por inércia.
Se houver a
repetição de uma diminuta participação, nenhum partido, dois referendos
depois, tem o direito de desautorizar a Assembleia da República a
deliberar sobre a despenalização do Aborto. Em nenhuma condição deve
ser desacreditada a lei, fazendo vingar a ilicitude formal, por
“omissão” consentida. Ou então alterem a lei antes do referendo. Sob
pena de posteriores consultas, nas mesmas circunstâncias, dependerem
das conveniências.
Os zunzuns sobre esta matéria aconselham a uma clarificação.
Já
bastou um referendo tornado válido, por respeito a uma vontade expressa
de quem foi votar. O PS, o PSD, o CDS não podem esquivar-se às suas
responsabilidades se esta for a vontade da maioria. A responsabilidade
de legislar no parlamento se não houver uma maioria de votantes.
Espera-se uma posição clara e não ambiguidades. Os restantes partidos
já tomaram posição. O PC e os Verdes nem queriam o referendo, o Bloco
aceita o resultado, se houver uma maioria vinculativa, caso contrário,
deve ser resolvido no parlamento. Não pode é haver mais adiamentos.
(publicado em Outubro 20, 2006)
2 - Sim concordo!
Eu ouço, leio e não percebo. Parece
que alguns deputados, figuras (ou figurões) como Marcelo Rebelo de
Sousa, Paulo Portas, Zita Seabra que sempre estiveram e continuam a
estar contra a despenalização do aborto, (que vai ser sujeito a
referendo em Janeiro) pretendem agora, despenalizar as mulheres que
fazem o aborto!!? Não percebo mesmo… afinal querem ou não criminalizar
as mulheres que interrompam a gravidez? Não é contraditório querer
despenalizar o “crime” mantendo na lei que é “crime”? E um crime tem de
ser penalizado ou não? A pergunta é clara e concreta:
Santa hipocrisia!
Afirmam-se contra o aborto, apelam ao voto NÃO mas na prática pretendem um SIM. Isto é a despenalização do aborto. Que fique claro; dizer NÃO à pergunta sujeita a referendo, é dizer que pretendem a penalização, não é dizer o contrário. É dizer que querem os julgamentos, a prisão das mulheres, o aborto clandestino. Não sendo assim, apenas terão de votar SIM no referendo. A pergunta é muito claro para deixar dúvidas.
Uma resposta SIM, permite às mulheres, até às 10 semanas, interromper a gravidez, em condições de segurança, com apoio médico e num estabelecimento de saúde. Permite até, eventualmente, reverter a decisão de um aborto, por aconselhamento especializado.
Uma resposta NÃO, não vai impedir as mulheres de abortar. Apenas as criminaliza. As mulheres, tal como agora, continuarão a fazer o aborto em condições desumanas, sem apoio médico e psicológico, pondo em causa a sua própria vida, arriscando-se ir a julgamentos humilhantes e a uma condenação.
É esta é a questão central. Ninguém faz o aborto por deleite, por ser um infanticida, ou mesmo por desconhecimento dos métodos contraceptivos. Ou como método contraceptivo. Não inventem. A decisão de interromper a gravidez é tão dolorosa, tão marcante psicologicamente, que só por crueldade ou preconceitos morais absurdos, poderá alguém no seu juízo perfeito, pensar nessas possibilidades.
Quem tomou a decisão de interromper a gravidez acabará por fazê-lo, independentemente da lei prever a criminalização desse acto. Sempre foi assim e vai continuar a ser.
O problema é outro. Não se deve obrigar uma mulher a deixar nascer uma criança indesejada. Uma criança não amada. Uma criança para ser deixada ao abandono ou para ser entregue para adopção. O nascimento de uma criança é um acto sublime. A concepção desejada, pensada, no tempo certo, em condições socio-económicas e psicológicas adequadas, é uma criança amada antes de nascer. Atirar para o mundo uma criança, porque falharam os métodos contraceptivos, por descuido, ou por irresponsabilidade, isso sim é que um crime.
Um NÃO, não resolve o problema do aborto. Não dá segurança, tranquilidade, não evita o aborto clandestino. Um SIM, com acompanhamento médico, acompanhamento psicológico, feito em condições de higiene e salubridade, “protege” a mulher e pode ainda fazer, se for o caso, reverter a decisão de abortar.
Tudo o que fuja disto é contraproducente. As campanhas nojentas de alguns dos defensores do NÃO, mostrando imagens de fetos, de algumas semanas, recorrendo ao horror, apelidando de criminosos os defensores do SIM, são insuportáveis e revelam má consciência. Porque para serem consequentes, deviam serem em todas as condições contra o aborto, mesmo as que hoje são aceites na lei, como por má deformação, por violação, etc.
Seria bom que a discussão sobre este assunto se colocasse no plano concreto da pergunta.
Sim, porque é possível fazer um aborto por amor.
(publicado em Setembro 30, 2006)
1 - O aborto e o oportunismo do PCP